[Etc-br] [g2g] Re: Eloá - tudo aquilo que a mídia não quer falar
Patricia Fisch
p.fisch at gmail.com
Thu Oct 23 18:11:50 CEST 2008
Enquanto as mães e pais não começarem a ensinar a suas filhas e filhos que
todos são iguais com mesmos direitos, desejos, vontades isso não vai mudar.
Não da pra esquecer que estamos sob o dogma do catolicismo, religião
machista onde as culpas e pecados do mundo vem junto da mulher desde o
nascimento. Impura, pecadora, ladina, mentirosa, falsa ... alguns dos
adjetivos que a biblia usa para denominar as mulheres.
Não estou atacando a religião, apenas querendo abrir a conversa sobre isso.
Somos dominados por religiões patriarcais a séculos, e esse dogma "ensina"
que a mulher é um ser inferior (100 anos que adquirimos o direito ao voto?),
em 1900 e caquinha ainda se queimavam mulheres na fogueira. até hoje as
mulheres trabalham mais e ganham menos que os homens, mesmo tendo em certas
ocasiões o dobro da qualificação profissional.
A tv grobo mostra nas novelas as mulheres servindo de objeto, balançando o
bumbumbão pra entrar no concurso X, pra pegar o gostoso Y. E da-lhe boquinha
da garrafa.
Não mostram a mulher sendo um ser liberal. Não mostram a mulher dona do seu
poder, do seu sexo, do seu ser, do seu universo.
Se ela se dá bem, com certeza passou por cima de alguém, ou é mau caracter,
ou a vilã ou sentou na cadeira certa.
As escolas liberam o bonde das cachoras na hora do recreio pras crias
ouvirem (estou em litigio com a escola, na minha época, com 10 anos fui
expulsa do colegio das freiras pq estava lendo o Cortiço... livro sujo e
pervertido segundo a irmã Ermelinda).
As mães vestem as filhas de 8, 9 anos com roupa de esquina (mini saia no
queixo, blusinha justa e bota de salto). julinha brinca de boneca, e as
vizinhas perguntam se eu não acho ela muito "velha" pra brincar de boneca
com 10 anos. Eu acho é que ela é muito nova pra brincar de pegar o "boneco"
dos meninos. Infância é pra ser curtida até a hora que ela não quiser mais,
não vou cortar a brincadeira e toda a fase ludica da vida dela. Fase aliás,
que vai ajudar na fase ludica da adolescencia, da vida toda dela.
Uma mãe/pai que permitem que uma criança de 12 anos namore com um homem de
19 eu, particularmente acho deprimente.
Minha mae casou obrigada aos 15. Nasci ela tinha 16.. quase 17. Ainda
brincava de boneca e reza a lenda que levou 3 meses pra deixar meu pai
chegar perto dela de medo da coisa, que ela nem sabia o que era.
Casou pq tinha boca demais em casa e comida de menos. Mas eram outros
tempos.
Tempos em que mulher era criada pra casar. Nos dias de hoje devemos criar
nossas crianças para se realizarem, para serem felizes.
Casar se quiserem, com quem quiserem. Mas nunca com 12, 13 anos.
Fico com medo desse nosso mundo. Fico com medo de me tornar chata,
preconceituosa, ou sei lá o que.
Fico com medo de tentar prender as crias por medo da rua. Fico com medo de
soltar e morrer de medo do mundo.
Fico com medo de ver toda a criação que eu julgo certa (pq eu acho, nada diz
que estou acertando ou não) ir pras cucuias no primeiro par de olhos lindos
ou peitão passando na frente dos meus filhos.
Aqui no bairro teve um menino que apanhou da namorada. Tenho medo da
violencia, seja ela feminina ou masculina.
Tenho medo do nosso mundo. Apesar dos gritos que damos para modificar as
coisas, ainda reificamos mesmo sem querer o passado, e apesar disso tudo
anda na mesma maré.
Tadinha da Eloá. Não vai entrar no céu porque não era mais virgem. Comeu a
maça antes do recreio.
Vai arder no mármore do inferno pq se tornou uma infiel e impura no momento
que recusou o Linderberg quando ELE quis.
No dia em que as pessoas largarem os dogmas, aceitarem os outros como
aceitam a si mesmas e souberem o real significado da palavra RESPEITO pode
ser que a gente não assista mais pela Tv, net, ou sabe-se lá qual meio
telepático de comunicação vai existir então cenas como essa.
Não precisaremos nos indignar com a vizinha levando tapão, e nos revoltar
quando tentamos ajudar e ainda ouvimos um : mas meu marido estava nervoso,
ele é tão bonzinho...
De novo, não entendam como um ataque religioso, porque não é. Mas a criação
que nossos tatatata era baseada nisso. Por isso ainda temos que ouvir
absurdos quando acontece uma coisa dessas. O assassino era gent boa, ela que
discordava dele o tempo todo no cativeiro...
Pi
2008/10/22 eiabel lelex <eiabel.lelex at gmail.com>
> a violência contra as mulheres parece que se tornou banal... o mais trágico
> é que maioria continua apanhando calada... começa com um cla boca, depois um
> empurrão, depois um puxão de cabelo, depois um tapa, soco, depois a morte...
> maioria só denuncia qdo chega nos filhos... qdo os filhos passam a ser tbém
> vitimas da violência doméstica... tem dados estatisticas que dizem que o
> guri que cresce vendo sua mãe apanhar, acaba batendo na sua parceira,
> companheira tbém... o mais trágico é que ainda existem mulheres que educam
> seus filhos e filhas para a viol~encia, para a submissão... ainda existem
> mulheres que acham que se uma mulher apanhou é porque alguma coisa fez...
> mais trágico ainda é que ainda existem homesn e mulheres que se justificam
> em nome da defesa da honra, da mulher honesta... comportamentos e atitudes
> do tempo da avó da Drica que persistem, resistem entre nós... cada vez mais
> é preciso, necessário, urgente a defesa de que o homem sozinho não
> representa toda a humanidade e que a mulher antes de ser um sexo é um
> individuo... abre parenteses, qdo participei da gravação, produção do globo
> reporter sobre a lei maria da penha, a reportagem feita em pernambuco foi um
> chute no estomago, a equipe da globo gravou uma mulher sendo espancada,
> espancada mesmo, com o cara batendo a cabeça dela contra uma parede... o
> mais impressionante é que as pessoas que estavam no bar onde rolou a
> agressão, nada fizeram... parecia algo normal entre aquela gente... foi a
> equipe e uma outra mulher que interviram, gritaram, dispersaram... mas,
> entre nós mesmo, qtas vezes fomos "vítimas" de violência contra nossa pessoa
> pelo simples fato de ser mulher? é só a gente parar prá observar... não se
> trata apenas de porque somos mulher por ser mulher, mas muitas vezes somos
> vítimas sim pelo simples fato de se mulher... é caso de polícia, de justiça,
> de educação, de cultura... parece que vem dos tempos da caverna onde nos
> contam que o macho dava uma paulada na femea e a arrastava prá caverna... e,
> puta que pariu, tem mulher que ainda se acha a tal sendo somente ornamental.
>
> beso
>
> saudades de vcs... vamos fazer uma imersão?
>
> lelez
>
>
>
> 2008/10/21 Fabianne Balvedi <fabs at estudiolivre.org>
>
> pois eh, e com o consentimento dos pais!
>> novamente falta o foco na educação familiar, como no caso da TRIP,
>> em que não vi ninguém questionar o fato do cara ser menor de idade
>> quando comenteu o crime, o que transfere parte da responsabilidade
>> aos pais dele também.
>>
>>
>>
>> 2008/10/20 Drica Veloso <dricaveloso at gmail.com>
>>
>> o que to achando mais bizarro é simpelsmente ninguém fdalar do fato de
>>> que a menina começou um relacionamento aos 12 anos com um cara de
>>> 19!!!! isso é coisa do tempo da minha bisavó que casou coom meu bisavo
>>> aos 12 anos quando nem tinha menstruado... naquela época isso era
>>> normal... e parece q hj em dia tb!!!
>>>
>>> 2008/10/20 Fabianne Balvedi <fabs at estudiolivre.org>:
>>> > Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem
>>> > Sábado, 18 de Outubro de 2008
>>> >
>>> > Há menos de 24h do trágico desfecho do seqüestro de Eloá Cristina
>>> > Pimentel, por Lindemberg Alves, todos atônitos procuramos "compreender"
>>> > via mediação dos meios de comunicação social e de especialistas da
>>> > segurança pública, psicólogos, e outros, um fato presente
>>> cotidianamente
>>> > no noticiário: o assassinato de mulheres.
>>> >
>>> > Muitas são as explicações que tentam dar conta do comportamento do
>>> jovem,
>>> > cujo perfil durante o processo de negociação fora retratado pelos meios
>>> > como de um rapaz tranqüilo, trabalhador, que tinha planos para casar.
>>> > "Dificuldade de lidar com as frustrações"; "comportamento passional",
>>> "de
>>> > tolerância muito baixa às frustrações", entre outros argumentos são
>>> > discutidos publicamente em jornais, sites, rádio, enfim, em todo
>>> processo
>>> > de agendamento desta lamentável crônica de mais uma tragédia
>>> midiatizada.
>>> > Inúmeros aspectos deste acontecimento são ressaltados na cobertura: o
>>> > lugar, os protagonistas, o tempo, amigos, imagens, os momentos de
>>> > negociação, os lugares de origem de Eloá e Lindemberg, as imagens...
>>> > Todavia há um aspecto a ser considerado nesta notícia, e que passa
>>> > intocado na cobertura de crimes que possuem semelhança com o homicídio
>>> de
>>> > Eloá, o fato de que eles se relacionam com as desigualdades de gênero.
>>> Se
>>> > nos negarmos a discutir também nos noticiários esta face da violência,
>>> > será muito difícil à superação de algo que pode ser considerado,
>>> > lamentavelmente, um padrão cultural vigente, a prática de crimes contra
>>> as
>>> > mulheres.
>>> >
>>> > Um breve monitoramento de mídia permite perceber a brutalidade e
>>> > reificação de crimes como estes: eles não são apenas crimes passionais,
>>> > podem ser situados numa teia complexa de construção de valores sociais
>>> que
>>> > forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de
>>> decidir a
>>> > própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e
>>> > legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle.
>>> São
>>> > de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos
>>> > psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da
>>> > sujeição.
>>> >
>>> > Perceber os gêneros como processo de mediação do social é urgente para
>>> nos
>>> > darmos conta da violência contra a mulher como um fenômeno social cujo
>>> > aparecimento cotidiano nas mídias também precisa ser interpretado,
>>> > refletido com e a partir dos veículos de comunicação e tendo como foco
>>> o
>>> > papel social dos profissionais de imprensa.
>>> >
>>> > A motivação de Lindemberg em manter seqüestrada Eloá e tentar por fim a
>>> > vida da jovem se inter-relaciona com outros fatos conhecidos da
>>> sociedade
>>> > brasileira, como os assassinatos de Ângela Diniz, Sandra Gominde,
>>> Daniela
>>> > Perez, e ainda de inúmeros casos de violência e homicídios femininos
>>> que
>>> > são noticiados, mas que carecem não de uma tentativa de tentar
>>> compreender
>>> > o comportamento masculino, mas de questionar os valores sociais que se
>>> > reproduzem nas trocas simbólicas e tecem ainda, tristemente, este
>>> > predomínio do falo que oprime e extermina.
>>> >
>>> > O tiro na virilha de Eloá não é só uma metáfora, mas uma expressão do
>>> ódio
>>> > da tentativa frustrada de continuar mantendo o exercício do controle
>>> sobre
>>> > o corpo das mulheres, por isto me sinto hoje também transpassada por
>>> esta
>>> > bala.
>>> >
>>> > Numa das notícias veiculadas sobre o Caso Eloá, dois personagens
>>> > sobrenaturais surgiram: um anjinho e um diabinho que acompanhavam
>>> > Lindemberg. Parece inacreditável, mas este recurso, muito comum entre
>>> > homens que praticam violência contra as mulheres, aparece mais uma vez
>>> > como uma máscara, uma performance que busca esconder o lado perverso de
>>> um
>>> > imaginário social que em momentos como este é despertado pelos disparos
>>> > protagonizados por um homem que representa os mecanismos simbólicos
>>> > forjados socialmente e que negam cotidianamente às mulheres o seu
>>> direito
>>> > a vida.
>>> >
>>> > Sandra Raquew dos Santos Azevedo, jornalista.
>>> >
>>> >
>>> http://etnografiasdoinvisivel.blogspot.com/2008/10/elo-o-que-as-mdias-e-os-especialistas.html
>>> >
>>> > ______________________________
>>> > A "crise amorosa" do Coronel Felix
>>> >
>>> > A justificativa do coronel Eduardo Felix para explicar porque não
>>> atiraram
>>> > num sequestrador que se outorgou direito de morte sobre duas mulheres,
>>> > baseou-se no mito do amor: " é um garoto de 22 anos de idade, sem
>>> > antecedentes criminais e com uma crise amorosa". O criminoso, pois
>>> > sequestro é crime hediondo, motivado por ódio, transforma-se em um
>>> garoto
>>> > enamorado, nas mãos de quem o Coronel entregaria seu filho. O irmão de
>>> > Nayara, que sabia o que estava em cena, não entrou no cativeiro.
>>> >
>>> > Em cena, o direito de propriedade ultrajado do macho sobre as fêmeas da
>>> > espécie. A mulher que se recusa a se submeter a essa lei é morta. É
>>> mais
>>> > uma a ingressar numa enorme lista. O Coronel tinha essa lei em mente.
>>> > Baseado nela, seu julgamento condenou Eloá à morte.
>>> >
>>> > Não podemos deixar passar mais esse caso emblemático do pacto dos
>>> > patriarcas sobre a posse das mulheres. A imprensa foca em quem atirou,
>>> > como se não se
>>> > tratasse de machos se defendendo, não importa as consequências para as
>>> > mulheres.Tudo foi feito para poupar o criminoso. Até deixar a amiga
>>> entrar
>>> > de novo no cativeiro! E o Serra corroborando a ação da PM.
>>> >
>>> > Crime passional não existe! A crime é a misoginia do sequestrador, dos
>>> > policiais, do governador e da mídia!
>>> > As mulheres morrem porque os homens odeiam quando elas são mulheres,
>>> elas
>>> > mesmas, em vez de SUAS namoradas, SUAS esposas, SUAS mães.Não se trata
>>> de
>>> > amor, trata-se de ódio. Ou isso fica claro ou nunca iremos dar conta da
>>> > "violência" contra a mulher.
>>> >
>>> > ana reis/NEIM-UFBA
>>> >
>>> > _______________________________________
>>> > Quem quer e não possui... mata porque ama!
>>> >
>>> > "Quero Eloá, amo a Eloá", essa é a frase que se tornou símbolo do crime
>>> > cometido por um homem violento e homicida. Frase que tirou o critério
>>> de
>>> > crime da situação e colocou em cena a figura do homem apaixonado e
>>> > desesperado pela falta do amor da sua vida.
>>> >
>>> > Enquanto o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar
>>> > esperava durante longos cinco dias para saber se o homem violento e
>>> > homicida iria se entregar, as pessoas se perguntam porquê os policiais
>>> não
>>> > atiraram nele nas seis vezes que ele ficou na mira dos atiradores de
>>> > elite.Vejo algumas pessoas se perguntarem de quem Eloá foi vítima.
>>> Aquela
>>> > cegueira que tanto, nós feministas, denunciamos, ficou absurdamente
>>> > evidente nesse caso que torturou de expectativa e medo a população
>>> > brasileira.
>>> >
>>> > O coronel da tropa de choque de São Paulo, Eduardo José Félix, diz que
>>> se
>>> > atirasse num rapaz de 22 anos em crise amorosa, todos julgariam que ele
>>> > matou um rapaz sem antecedentes criminais, trabalhador, por está
>>> > desesperado pela perda da namorada, sem nem ao menos esperar uma
>>> > negociação. Não só eu, mas acredito que muitas e muitas pessoas
>>> tremeram
>>> > ao ouvir a declaração do coronel, que ao invés de decidir cumprir seu
>>> > dever como policial, na defesa e proteção da vida das adolescentes
>>> > enclausuradas e ameaçadas, resolveu proteger o "pobre rapaz vítima de
>>> uma
>>> > crise amorosa". Como as coisas podem ser tão distorcidas assim? Como se
>>> > permite, apesar de tanto treinamento e experiência, que uma refém volte
>>> ao
>>> > cativeiro?
>>> >
>>> > O que mais me chocou, como ser humano, foi acompanhar Eloá viva na
>>> janela,
>>> > por várias vezes e depois vê-la, rodeada de policiais, com um tiro na
>>> > cabeça. O que mais me chocou como mulher, foi sentir o respeito pelo
>>> > "rapaz apaixonado" e o descaso pela vida das duas adolescentes que
>>> estavam
>>> > com o direito de viver ou morrer nas mãos de Lindembergue.
>>> >
>>> > Na mídia e no ato passivo da polícia, ficou evidente que não se tratava
>>> de
>>> > um bandido nem de um criminoso, mas de um rapaz com o futuro inteiro
>>> pela
>>> > frente, que estava num momento de loucura. E onde fica o presente
>>> daquelas
>>> > meninas? Onde fica o futuro delas? Por que os outros reféns, rapazes,
>>> > foram logo liberados?
>>> >
>>> > Em nenhum momento percebi o direito à vida ser discutido. O que se
>>> falava
>>> > era que elas eram lindas e inseparáveis, e Eloá a menina mais bonita da
>>> > escola. Ela é uma menina bela, ponto.
>>> >
>>> > Como é que um homem maior de idade, que mantêm duas adolescentes de 15
>>> > anos na mira de uma arma de fogo em cativeiro por cinco dias, não é um
>>> > criminoso? Por que tanto respeito a ponto de invadir o apartamento com
>>> > balas de borracha apenas? As "balas de verdade" do "pobre rapaz" a vida
>>> de
>>> > Eloá, e deixaram marcas para sempre no rosto de Nayara.
>>> >
>>> > Amor? Até quando as mulheres vão morrer por essa coisa estúpida e
>>> perigosa
>>> > que chamam de amor? Até quando os homens vão se sentir tão
>>> proprietários
>>> > da vida das mulheres a ponto de decidir se ela continua ou acaba?
>>> >
>>> > Evidentemente que ele não tinha nada a perder. Como negociar com um
>>> > bandido se você não tem o que ele quer? Ele queria a propriedade sobre
>>> a
>>> > vida de uma mulher, suas decisões, seu afeto, sua vida... e já que ele,
>>> na
>>> > sua lógica, não a possuía mais, a penetrou e a feriu de morte com uma
>>> bala
>>> > em seu ventre, região da sexualidade e da vida. E para acabar com a
>>> > possibilidade enfim, dela continuar vivendo sua própria vida, suas
>>> > próprias decisões, o veredicto final do "pobre rapaz": um tiro que
>>> > atravessou sua cabeça.
>>> >
>>> > E por que ele teve tanta liberdade de decidir por isso? Porque ele é "o
>>> > cara, o príncipe do gueto", e príncipes costumam decidir quem vive e
>>> quem
>>> > morre.
>>> >
>>> > Agora como consolo, a mídia mais uma vez faz aquele velho discurso: "os
>>> > órgãos da menina vão beneficiar pelo menos oito pessoas", aquele
>>> discurso
>>> > da bondade, do "não foi tudo perdido", a diretora do hospital declara:
>>> "a
>>> > gente acredita que vai ter grande sucesso. Apesar da dor da família, de
>>> > todo esse estresse emocional que esse seqüestro causou, a gente tem
>>> > alegria, com certeza, de fazer muitas pessoas que tinham o prognóstico
>>> > fechado viverem".
>>> >
>>> > Sucesso? Estresse? Alegria? Essas palavras me trazem aquela sensação de
>>> > filme já visto, do desvio das atenções, do apelo à doação de órgãos, o
>>> que
>>> > de fato é absolutamente legítimo, mas que neste caso não pode borrar a
>>> > atenção do assassinato de Eloá por um homem violento que se achava seu
>>> > dono.
>>> >
>>> > Apesar de tudo, o delegado do caso, Luis Carlos dos Santos, ainda tem
>>> > muitas dúvidas antes de dar qualquer pronunciamento sobre a
>>> qualificação
>>> > do crime: "Precisamos saber principalmente o que o levou a tomar a
>>> decisão
>>> > de atirar nas vítimas". Seria para rir se não fosse tão trágico!
>>> >
>>> > Infelizmente, as mulheres ainda continuam lacradas, e neste caso,
>>> lacrada,
>>> > perfurada no útero por uma bala, eliminada da sua condição de "ser",
>>> pelo
>>> > dono da situação, que decidiu que sem ser de sua propriedade, não havia
>>> > nenhum motivo para continuar viva, ela já não tinha mais nenhum valor.
>>> >
>>> > Espero que, no julgamento ao menos, esse homem violento, homicida
>>> > premeditado e seqüestrador, seja visto como tal, e não como um
>>> > "trabalhador, calmo, amigo, companheiro e rapaz desesperado" como quer
>>> a
>>> > mídia e a polícia.
>>> >
>>> > E eu fico aqui, me perguntando por que tanta condescendência com os
>>> homens
>>> > violentos e assassinos e tão pouco direito para as mulheres nessa
>>> > sociedade que se diz democrática.
>>> >
>>> > Kaliani Rocha
>>> > kalianirocha at yahoo.com.br
>>> >
>>> > ___________________________________
>>> > Feminicídio ao vivo – o que nos clama Eloá
>>> >
>>> > Maria da Penha Maia Fernandes – Inspiradora da lei Maria da penha 11340
>>> e
>>> > Coordenadora de Honra da Coordenadoria da Mulher da Prefeitura
>>> Municipal
>>> > de Fortaleza.
>>> >
>>> > Tudo o que o Brasil acompanhou com pesar no drama de Eloá, em suas cem
>>> > horas de suplício em cadeia nacional, não pode ser visto apenas como
>>> > resultado de um ato desesperado de um rapaz desequilibrado por causa de
>>> > uma intensa ou incontrolada paixão. É uma expressão perversa de um tipo
>>> de
>>> > dominação masculina ainda fortemente cravada na cultura brasileira. No
>>> > Brasil, foram os movimentos feministas que iniciaram nos anos de 1970,
>>> as
>>> > denúncias, mobilização e enfrentamento da violência de gênero contra as
>>> > mulheres que se materializava nos crimes cometidos por homens contra
>>> suas
>>> > parceiras amorosas. Naquele período ainda estava em vigor o instituto
>>> da
>>> > defesa da honra, e desenvolveram-se ações de movimentos feministas e
>>> > democráticas pela punição aos assassinos de mulheres. A alegação da
>>> > defesa da honra era então justificativa para muitos crimes contra
>>> > mulheres, mas no contexto de reorganização social para a conquista da
>>> > democracia no país e do surgimento de movimentos feministas, este tema
>>> vai
>>> > emergir como questão pública, política, a ser enfrentada pela
>>> sociedade
>>> > por ferir a cidadania e os direitos humanos das mulheres. O assassinato
>>> de
>>> > Ângela Diniz em dezembro de 1976, por seu namorado Doca Street, foi o
>>> > acontecimento desencadeador de uma reação generalizada contra a
>>> absolvição
>>> > do criminoso em primeira instância, sob alegação de que o crime foi uma
>>> > reação pela defesa da "honra". Na verdade, as circunstâncias mostravam
>>> um
>>> > crime bárbaro motivado pela determinação da vítima em acabar com o
>>> > relacionamento amoroso e a inconformidade do assassino com este fim.
>>> Essa
>>> > decisão da justiça revoltou parcelas significativas da sociedade cuja
>>> > pressão levou a um novo julgamento em 1979 que condenou o assassino.
>>> Outro
>>> > crime emblemático foi o assassinato de Eliane de Grammont pelo seu
>>> > ex-marido Lindomar Castilho em março de 1981. Crimes que motivaram a
>>> > campanha "quem ama não mata".
>>> >
>>> > Agora, após três décadas, o Brasil assistiu ao vivo, testemunhando, o
>>> > assassinato de uma adolescente de 15 anos por um ex-namorado
>>> inconformado
>>> > com o fim do relacionamento. Um relacionamento que ele mesmo tomou a
>>> > iniciativa de acabar por ciúmes, e que Eloá não quis reatar. O
>>> assassino,
>>> > durante 100 horas manteve Eloá e uma amiga em cárcere privado, bateu na
>>> > vitima, acusou, expôs, coagiu e por fim martirizou o seu corpo com um
>>> tiro
>>> > na virilha, local de representação da identidade sexual, e na cabeça,
>>> > local de representação da identidade individual. Um crime onde não
>>> apenas
>>> > a vida de um corpo foi assassinada, mas o significado que carrega – o
>>> > feminino. Um crime do patriarcado que se sustenta no controle do corpo,
>>> da
>>> > vontade e da capacidade punitiva sobre as mulheres pelos homens. O
>>> > feminicídio é um crime de ódio, realizado sempre com crueldade, como o
>>> > "extremo de um continuum de terror anti-feminino", incluindo várias
>>> formas
>>> > de violência como sofreu Eloá, xingamentos, desconfiança, acusações,
>>> > agressões físicas, até alcançar o nível da morte pública. O que o seu
>>> > assassino quis mostrar a todas/os nós? Que como homem tinha o controle
>>> do
>>> > corpo de Eloá e que como homem lhe era superior? Ao perceber Eloá como
>>> > sujeito autônomo, sentiu-se traído, no que atribuía a ela como mulher
>>> (a
>>> > submissão ao seu desejo), e no que atribuía a si como homem (o poder
>>> sobre
>>> > ela – base de sua virilidade). Assim o feminicídio é um crime de poder,
>>> é
>>> > um crime político. Juridicamente é um crime hediondo, triplamente
>>> > qualificado: motivo fútil, sem condições de defesa da vítima,
>>> premeditado.
>>> >
>>> > Se antes esses crimes aconteciam nas alcovas, nos silêncios das
>>> > madrugadas, estão agora acontecendo em espaços públicos, shoppings,
>>> > estabelecimentos comerciais, e agora na mídia. Para Laura Segato[i] é
>>> > necessário retirar os crimes contra mulheres da classificação de
>>> > homicídios, nomeando-os de feminicídio e demarcar frente aos meios de
>>> > comunicação esse universo dos crimes do patriarcado. Esse é o caminho
>>> para
>>> > os estudos e as ações de denúncia e de enfrentamento para as formas de
>>> > violência de gênero contra as mulheres.
>>> >
>>> > Muita coisa já se avançou no Brasil na direção da garantia dos direitos
>>> > humanos das mulheres e da equidade de gênero, como a criação das
>>> > Delegacias de Apoio às Mulheres – DEAMs, que hoje somam 339 no país, o
>>> > surgimento de 71 casas abrigo, além de inúmeros núcleos e centros de
>>> apoio
>>> > que prestam atendimento e orientação às mulheres vítimas, realizando
>>> > trabalho de denúncia e conscientização social para o combate e
>>> prevenção
>>> > dessa violência, além de um trabalho de apoio psicológico e resgate
>>> > pessoal das vítimas. Também ocorreram mudanças no Código Penal como a
>>> > retirada do termo "mulher honesta" e a adoção da pena de prisão para
>>> > agressores de mulheres, em substituição às cestas básicas. A criação da
>>> > Lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para o enfrentamento da violência
>>> > doméstica contra as mulheres.
>>> >
>>> > Mas, ainda assim as violências e o feminicídio continuam a acontecer.
>>> > Vejamos o exemplo do Estado do Ceará: em 2007, 116 mulheres foram
>>> vítimas
>>> > de assassinato no Ceará; em 2006, 135 casos foram registrados; em 2005,
>>> > 118 mortes e em 2004, mais 105 casos[ii]. As mulheres estão num
>>> caminho
>>> > de construção de direitos e de autonomia, mas a instituição do
>>> patriarcado
>>> > continua a persistir como forma de estruturação de sujeitos. É preciso
>>> que
>>> > toda a sociedade se mobilize para desmontar os valores e as práticas
>>> que
>>> > sustentam essa dominação masculina, transformando mentalidades,
>>> > desmontando as estruturas profundas que persistem no imaginário social
>>> > apesar das mudanças que já praticamos na realidade cotidiana. O
>>> comandante
>>> > da ação policial de resgate de Eloá declarou que não atirou no
>>> agressor
>>> > por se tratar de "um jovem em crise amorosa", num reconhecimento ao seu
>>> > sofrer. E o sofrer de Eloá? Por que não foi compreendida empaticamente
>>> a
>>> > sua angústia e sua vontade (e direito) de ser livremente feliz?
>>> >
>>> > Maria Dolores de Brito Mota - Socióloga, professora da Universidade
>>> > Federal do Ceará
>>> >
>>> > [i] SEGATO, Rita Laura. Que és um feminicídio. Notas para um debate
>>> > emergente. Serie Antropologia, N. 401. Brasília: UNB, 2006.
>>> >
>>> > [ii] Dados disponíveis em:
>>> >
>>> http://www.patriciagalvao.org.br/apc-aa-patriciagalvao/home/noticias.shtml?x=1076
>>> >
>>> >
>>> > --
>>> >
>>> > ~o
>>> > /<,
>>> > ._`\ -_\#/
>>> > (*) /-(*) vote bike!
>>> >
>>> > --
>>> > Fabianne Balvedi
>>> > GNU/Linux User #286985
>>> > http://fabs.tk
>>> > "Art. 38. Antes de entrar à direita ou à esquerda, em outra via ou em
>>> lotes
>>> > lindeiros, o condutor deverá: [...] ceder passagem aos pedestres e
>>> > ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista
>>> da via
>>> > da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem."
>>> > http://www.cicloviavel.org/CTB-bici.html
>>> >
>>> >
>>> >
>>> >
>>> > _______________________________________________
>>> > Etc-br mailing list
>>> > Etc-br at eclectictechcarnival.org
>>> > http://eclectictechcarnival.org/cgi-bin/mailman/listinfo/etc-br
>>> >
>>> >
>>>
>>>
>>>
>>> --
>>> Drica Veloso
>>> http://drica.org
>>> Linux user: #392121
>>>
>>
>>
>>
>> --
>> Fabianne Balvedi
>> GNU/Linux User #286985
>> http://fabs.tk
>> "Art. 38. Antes de entrar à direita ou à esquerda, em outra via ou em
>> lotes lindeiros, o condutor deverá: [...] ceder passagem aos pedestres e
>> ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista da via
>> da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem."
>> http://www.cicloviavel.org/CTB-bici.html
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>> (*) /-(*) vou de bike!
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