[Etc-br] Fwd: Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem
Éthel Oliveira
etheloliveira at gmail.com
Mon Oct 20 17:27:56 CEST 2008
meninas, esse artigo é muito bom!
acompanhem o *http://etnografiasdoinvisivel.blogspot.com/
beijos pra todas!
éthel
*---------- Forwarded message ----------
From: Sandra Raquew dos Santos Azevedo <sandraraquew at yahoo.com.br>
Date: 2008/10/18
Subject: Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem
To: Cristina Guedes <divinaimperatriz at hotmail.com>
Cc: etnaatero at gmail.com
*Eloá*
*O que as mídias e os especialistas não discutem*
*Sandra Raquew dos Santos Azevedo*
Há menos de 24h do trágico desfecho do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel,
por Lindemberg Alves, todos atônitos procuramos "compreender" via mediação
dos meios de comunicação social e de especialistas da segurança pública,
psicólogos, e outros, um fato presente cotidianamente no noticiário: a
violência contra as mulheres.
Muitas são as explicações que tentam dar conta do comportamento
do jovem, cujo perfil durante o processo de negociação fora retratado pelos
meios como de um rapaz tranqüilo, trabalhador, que tinha planos para casar.
"Dificuldade de lidar com as frustrações"; "comportamento passional", "de
tolerância muito baixa às frustrações", entre outros argumentos são
discutidos publicamente em jornais, sites, rádio, enfim, em todo processo de
agendamento desta lamentável crônica de mais uma tragédia midiatizada.
Inúmeros aspectos deste acontecimento são ressaltados na cobertura: o lugar,
os protagonistas, o tempo, amigos, imagens, os momentos de negociação, os
lugares de origem de Eloá e Lindemberg, as imagens... Todavia há um aspecto
a ser considerado nesta notícia, como em tantas outras que possui semelhança
com o seqüestro de Eloá e Nayara, o fato de que se trata de crimes que se
relacionam com as desigualdades de gênero e que se não discutirmos também
nos noticiários esta face da violência, se torna muito difícil a superação de
algo que pode ser considerado, lamentavelmente, um padrão cultural de se
matar mulheres.
Um breve monitoramento de mídia permite perceber a brutalidade e reificação
de crimes como estes: eles não são apenas crimes passionais, eles podem
situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um
feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria
vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado
socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa
maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do
poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição.
Perceber os gêneros como processo de mediação do social é urgente para que a
gente se dê conta da violência contra a mulher como um fenômeno social cujo
aparecimento cotidiano nas mídias também precisa ser interpretado, refletido
com e a partir dos veículos de comunicação.
A motivação de Lindemberg em manter seqüestrada Eloá e tentar por fim a vida
da jovem se inter-relaciona com outros fatos conhecidos da sociedade
brasileira, como os casos Ângela Diniz, Sandra Gominde, Daniela Perez, e
ainda de inúmeros casos de violência e homicídios femininos que são
noticiados, mas que carecem não de uma tentativa de tentar compreender o
comportamento masculino, mas de questionar os valores sociais que se
reproduzem nas trocas simbólicas e tecem ainda, tristemente, este predomínio
do falo que oprime e extermina.
O tiro na virilha de Eloá não é só uma metáfora, mas uma expressão do ódio
da tentativa frustrada de continuar mantendo o exercício do controle sobre o
corpo das mulheres, por isto me sinto hoje também transpassada por esta
bala.
Numa das notícias veiculadas hoje dois personagens sobrenaturais surgiram:
um anjinho e um diabinho que acompanhavam Lindemberg. Parece inacreditável,
mas este recurso, muito comum entre homens que praticam violência contra as
mulheres, aparece mais uma vez como uma máscara, uma performance que busca
esconder o lado perverso de um imaginário social que em momentos como este
é despertado pelos disparos protagonizados por um homem que representa neste
instante os mecanismos simbólicos que negam cotidianamente às mulheres o seu
direito a vida.
*Sandra Raquew dos Santos Azevedo, jornalista. *
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