[Etc-br] se os homens parissem o aborto já seria legal
eiabel lelex
eiabel.lelex at gmail.com
Fri Mar 7 22:45:55 CET 2008
*Misael Torres <mtorresmbr at ...>* escreveu:
Para: juven at ...
De: "Misael Torres" <mtorresmbr at ...>
Data: Thu, 6 Mar 2008 17:39:27 -0300
Assunto: [Liberdade e Revolução] Lboff/ processo de vida e aborto
Repasso mais um bom texto do Leonardo Boff.
Abraços,
Misael
*Militante do Coletivo Amar e Mudar as Coisas/UFC*
*Militante do Intercoletivos Nós Não Vamos Pagar Nada e da Frente de
Oposição de Esquerda da UNE (FOE-UNE)*
*O processo da vida e o aborto
*
Há tempos foram-se feitas duas perguntas. Recolho as respostas.
1.Como o senhor define a concepção de "vida"?
R/ O tema "vida" é objeto de muitos estudos, especialmente a partir da
nova biologia, da teoria do caos e das ciências da complexidade. Superou-se
a visão darwiniana que estudava a vida somente a partir dos organismos
vivos e da biosfera. Hoje trata-se de inserir na discussão da vida todos os
seus pressupostos cósmicos, físico-químicos, a consideração quântica dos
campos e redes de energia sem os quais não se entende a vida. Como diz
Stephen Hawking em seu livro "Uma nova história do tempo": "tudo no universo
precisou de um ajuste muito fino para possibilitar o desenvolvimento da
vida. Por exemplo, se a carga elétrica do elétron tivesse sido apenas
ligeiramente diferente, teria danificado o equilíbrio da força
eletromagnética e gravitacional nas estrelas e, ou elas teriam sido
incapazes de queimar o hidrogênio e o hélio, ou então não teriam explodido.
De uma maneira ou de outra, a vida não poderia existir"(Ediouro 2005, p.
121). A tendência atual da pesquisa é ver a vida como uma expressão de todo
o processo evolutivo. Ao alcançar certo grau de complexidade e estando longe
do equilíbrio (certo nivel de desarranjo de uma ordem dada), emerge a vida
como auto-organização da matéria. Sempre que isso ocorre, em qualquer parte
do universo, a vida eclode como um imperativo cósmico. É a tese entral de
Chistian de Duve, prêmio Nobel de biologia, em seu famoso livro "Poeira
vital"(1977, Campus). A vida humana é entendida como subcapítulo do capítulo
da vida. Para entender a vida deve-se, pois, observar todo o processo
evolutivo com as pre-condições que possibilitaram outrora e ainda hoje
possibilitam a emergência da vida. Isso não define a vida. Apenas tenta
explicar como surgiu. Ela mesma é uma emergência misteriosa até para os
própros cientistas.
2.Quando se fala sobre o início da vida, a Igreja Católica afirma que ela
começa no momento da concepção, em que óvulo e espermatozóide se encontram.
Assim sendo, mulheres que optam por realizar um aborto são acusadas de terem
cometido um atentado contra uma vida em potencial. Como avaliar a definição
de vida entre um embrião ou feto e uma mulher?
R/ Se inserirmos a vida no processo global da evolução, não nos podemos
contentar com essa visão assumida oficialmente pela Igreja nos dias atuais.
Na Idade Média não era assim, pois para Tomás de Aquino a humanização
começava apenas após 40 dias da concepção. A Igreja para efeito de sua ética
interna, pode estabelecer um momento da concepção da vida humana. Mas ela
deve estar consciente de que está entrando num campo no qual não tem
competência específica, o campo da ciência. Se entendermos a vida como um
processo cósmico que culmina na fecundação do óvulo, então devemos cuidar de
todos os processos necessários para a emergência da vida, como a
infra-estrutura ambiental e social. Tudo o que concorre para o surgimento da
vida deve ser objeto do cuidado por parte de todos. Todos os seres,
especialmente os vivos, são interdependentes. Não dá para pensar a vida
humana fora do contexto maior da vida em geral, da biosfera e das condições
ecológicas que sustentam o processo inteiro. Tais conhecimentos mal são
evocados no debate atual. Ademais devemos entender a vida humana
processualmente. Ela nunca está pronta. Lentamente vai desenrolando o código
genético que conhece várias fases, até que o ser concebido ganhe relativa
autonomia. Mesmo depois de nascidos, nós não estamos ainda prontos, pois
não temos nenhum órgão especializado que assegure nossa sobrevivência.
Precisamos do cuidado dos outros, do trabalho sobre a natureza para garantir
nossa sobrevivência. Estamos sempre em gênese. Todo esse processo é humano.
Mas ele pode ser interrompido numa das fases. Isso quer dizer, ocorre a
interrupção de um processo que tendia à plenitude humana mas que não foi
alcançada. Nesse quadro pode ser situado o aborto. Devemos proteger o mais
possível o processo mas devemos também entender que ele pode ser
interrompido por razões aleatórias ou pela determinação humana. Esta não é
isenta de responsabilidade ética. Mas ela deve atender ao caráter processual
da constituição da vida até alcançar a autonomia. Não é uma agressão ao ser
humano propriamente dito, mas ao processo que tendia constituir um ser
humano.
--
"Se você não concordar, não posso me desculpar..."
pela sinistra "laotra", sempre!
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